Nesta gravação
reuniram-se Elizeth Cardoso "A Divina", Jacob do Bandolim e seu conjunto
interpretando uma das mais bonitas músicas de Noel e Vadico. Esta gravação foi
realizada ao vivo num espetáculo produzido por Hermínio Bello de Carvalho em
1968 no Teatro João Caetano no Rio de Janeiro, especialmente para o Museu da
Imagem e do Som. Contou também com a participação dos conjuntos Época de Ouro e
Zimbo Trio. Noel Rosa foi apresentado ao compositor e pianista
paulista Vadico (Osvaldo Gogliano) por Eduardo Souto em 1932, quando no mesmo
dia Vadico mostrou a Noel seu último samba. Noel gostou tanto que colocou letra
dando assim orígem à `primeira composição das dez que os dois fizeram juntos:
"Feitio de oração". Esta letra Noel escreveu em homenagem à Julinha, uma de suas
muitas namoradas. Também em sua homenagem Noel compôs: "Pra esquecer", "Cor
cinza", "Meu barracão" e "Vai pra casa" esta com Francisco Matoso. Noel e Vadico
compuseram além de "Feitio de Oração", "Conversa de botequim", "Feitiço da
Vila", "Cem mil reis", "Só pode ser você", "Marcha do dragão", "Pra que mentir",
"Quantos beijos", "Provei" e "Mais um samba
popular".
Noel
de Medeiros Rosa nasceu em 11/12/1910, em Vila Isabel no Rio de Janeiro.
Apaixonado por música, conheceu o grande compositor Sinhô de quem se tornou
admirador, fato que o influenciou mais ainda a gostar de música. Em 1929,
um grupo de amigos de Vila Isabel e alunos do Colégio Batista, Almirante,
Braguinha, Alvinho e Henrique Brito formaram um grupo musical, o Flor do Tempo,
que se apresentava em festinhas locais. Pouco depois, esse grupo foi reformulado
mudando o nome para Bando dos Tangarás, com a inclusão de Noel Rosa. Daí em
diante Noel dedicou-se com afinco e exclusivamente à música, compondo e
gravando. Noel compunha tanto letras como músicas, sendo muito versátil e tendo
enorme sensibilidade e competência para captar e colocar em versos suas
críticas à sociedade carioca da época. Os maiores sucessos de Noel foram:
"Feitio de Oração", "Feitiço da Vila", "Pra que mentir", "Só pode ser você",
"Quantos beijos", "Cem mil Réis", "Conversa de Botequim" estas com o
músico paulista Vadico, "Pastorinhas" com Braguinha, "Último desejo", "Até
amanhã", "Com que roupa ?", "De babado", "Fita amarela", "Gago apaixonado",
"Palpite infeliz", "Três apitos" e muitas outras. Noel conseguiu com fina ironia
e muita sensibilidade retratar em versos e músicas as principais características
populares do Rio de Janeiro do início do século passado. Segundo o crítico João
Máximo "Noel pode não ter sido o melhor compositor da Época de Ouro da MPB (1930
- 1945) mas foi o mais importante. A transformação que Noel empreendeu diz
respeito à lírica da canção popular. Antes, a letra coloquial, anedótica,
debochada, satírica, confinava-se aos limites da canção carnavalesca. As letras
"sérias" principalmente as de cunho romântico, perdiam-se em preciosismos, em
imagens parnasianas, em exageros poéticos. Foi Noel Rosa quem demonstrou que
tudo cabe numa canção "séria", ainda que haja lugar também para a crítica e o
humor irreverentes". Noel largou o curso de medicina no terceiro ano para se
dedicar à música. Noel fazia tanto letras como músicas. Foi sem
dúvida o compositor brasileiro mais fértil ao retratar a sociedade brasileira
dos anos 20 e 30. Foi o primeiro compositor branco de classe média a "subir" o
morro e compor juntamente com "as orígens" do samba. Noel deixou cerca de 250
músicas e faleceu em 4/5/1936 com apenas 26 anos.
Dárcio
Fragoso
Feitio
de oração
(1932)
Composição: Noel Rosa e
Vadico
Interpretação: Elizeth
Cardoso
com Jacob ao
Bandolim
Quem acha vive se
perdendo
Por isso agora eu vou me defendendo
Da dor tão cruel desta
saudade
Que, por infelicidade,
Meu pobre peito
invade
Batuque é um
privilégio
Ninguém aprende samba no colégio
Sambar é chorar de
alegria
É sorrir de nostalgia
Dentro da melodia
Por isso agora lá na
Penha
Vou mandar minha morena
Pra sambar com satisfação
E com
harmonia
Esta triste melodia
Que é meu samba em feito de
oração
Por isso agora lá na
Penha
Eu vou mandar minha morena
Pra cantar com satisfação
E com
harmonia
Esta triste melodia
Que é meu samba em feito de
oração
O samba na realidade
não vem do morro
Nem lá da cidade
E quem suportar uma
paixão
Sentirá que o samba então
Nasce do coração.